sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O Cérbero de Pindorama.

Pra começo de conversa, vamos parar com essa mania besta de escrever bonito. Afinal, pra que enfeitar o “cu do burro”, se ninguém de fato lê o que escrevemos? É verdade, podem reparar. Eu sinceramente perdi o encanto e o deslumbre pelas letras muito arrumadinhas à custa de gumex. E sabe por quê? Porque ninguém está nem aí! E se quem lê não liga a mínima, eu é que vou ligar?

Eu assumo. Esta crônica é na verdade, um desabafo rancoroso de quem não sabe nem para onde atira e muito menos qual é o alvo de tal ódio. Queria poder dar nomes aos bois e listá-los por ordem de prioridades, mas não sei nem por onde começo. E a voz.... a voz.... essa maldita voz da consciência que me perturba e que me impele a escrever, mesmo sem um assunto na ponta da pena que o valha. Essa maldita voz que me empurra na direção do abandono, da desesperança e da solidão, meus fiéis companheiros; a mesma voz que ora me levanta nas alturas em júbilo obsceno, ora me atira às profundezas da mesquinharia.

É, você tem razão, eu sou um burro. E não me refiro ao falante da história bíblica nem o da obra de Monteiro Lobato.
Sou uma besta prestes a jogar fora uma preciosa fatia do meu tempo na confecção desta coletânea de abobrinhas, na vã tentativa de me tornar um escritor pior e assim, ter do que reclamar. Tenho comido de menos e fumado demais, sem achar graça nenhuma na vida e com a nebulosa certeza de que sou um caso perdido. Por isso é que escrevo. Se eu fosse realmente esse "cara valente" que acreditei que fosse a vida inteira, teria feito como Hemmingway. Ele foi mais corajoso, não é verdade?

Como não disponho nem de uma carabina e nem de colhões para tanto, resigno-me à situação e toco a minha vidinha sem graça sem lirismos, nem conversa fiada. A vidinha de um cara que escreve e nada mais. Um frustrado que niguém conhece, mas que teima em ser o seu anônimo íntimo. Sei, sei que é assustador e invasivo, mas o que há de se fazer? Continuar com medo? Logo da minha persona de Cérbero? Relaxe. É só uma fantasiazinha que não mete medo em ninguém. Afinal, as únicas portas que guardo são as do meu inferninho particular. Aquele que ninguém lê.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Confissões de um Coça-Nozes.


Era só o que me faltava! Estou aqui de frente para o meu moleschine digital, enquanto o mundo desaba em chuva na rua e eu, pra variar, sem absolutamente nada para fazer. Só de pensar que não terei sobre o que dizer em mais um capítulo da minha saga verborrágica, me acelera a queda dos cabelos. Pensei nos meus inimigos, mas não encontrei em nenhum deles um assunto relevante que pudesse figurar em meu colóquio de coçador de saco vespertino. Do meu trabalho, não tenho sobre o que reclamar e pra falar a verdade, em um país como o Brasil, ventilar esse tipo de chorumela eu acho até cafona.

E se não tenho do que reclamar, o que é que eu faço agora com meu tempo ocioso ? A rabugice é algo tão inerente à minha pessoa, que ao menor sinal de que as coisas estão andando bem já começo a ficar preocupado. Pode ser que seja o prenúncio de tempos ruins, estes tempos bons. Se o caro amigo e leitor onanista tiver um mínimo de sinapses sadias, irá compreender que para quem é amargo assim como eu, a felicidade é um estorvo. E eu falo, assumo o que digo e explico os porquês de se abominar os alegrinhos.

Pra começar, todo alegrinho ou é meio falso, ou meio burro. Ou não presta atenção à vida. Deve ser uma questão genética, sei lá. Não quero dizer com isso que ser uma pessoa medianamente feliz não tenha os seus méritos. Pelo contrário. Até admiro quem consegue estabelecer um equilíbrio entre as suas emoções e consegue passar a vida inteira fingindo que é normal, mas confesso que essa espécie de gente anda cada vez mais rara de se ver. Junte-se a isto o fato de que todo alegrinho possui uma disposição irritante para a vida, para a festa e o escambau, sem a menor comiseração (vou aproveitar que essa palavrinha está na moda para usá-la da maneira correta) por quem faz do infortúnio o seu modus vivendi.

E tem outra: os alegrinhos são à prova de ranhetices. E muito obstinados também. Solitário, um rabugento de carteirinha pode até se dar ao luxo de não ter de provar ao mundo o quão profundo ele o é, de viver a vida inteira assim e nem sequer se preocupar com isso, já que a ninguém ele dará oportunidade para uma eventual averiguação. Agora, quando um desses chatos com sorriso automático na cara consegue romper a paliçada que o protege do medo de ser visto como realmente é_ frágil_ e lhe mostra que a vida pode ser tão ou mais interessante que andar com nuvens na cabeça, o estrago já está feito. O ranheta deixa de ser carranca de São Francisco e passa a ser um alegre bonecão do posto. E o melhor: passa a achar graça em tudo. Até na falta do que escrever.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A caixa aberta.


As escadas pintadas de vermelhão e o velho barraco de madeira cuidadosamente pincelado com azul figuram entre as maiores lembranças da minha infância de moleque barrigudo. Não sei se me recordo dessa época por influência de uma foto já amarelecida pelo tempo_ em que apareço de shorts na cor grená empunhando um sabre do meu tio que foi cadete em Barro Branco _ ou pela absurda capacidade de retenção desta minha prodigiosa memória. O fato é que, pela primeira vez, tenho coragem de perder meu tempo falando sobre isso. Acho que é, de fato, a minha grande recordação e, simultaneamente, a primeira e a última vez em que me dei conta de que era gente. Um pingo, mas inegavelmente gente.

Ao leitor, digo “calma”, pois não embarcarei em uma espécie de “lira dos vinte anos”, até porque acho Álvares de Azevedo um chato de galochas que não tinha mais o que fazer. Que me perdoem os acadêmicos, os poetas bissextos e todo mundo que se mete à besta de escrever pelo meu comportamento belicoso de cronista temporão, mas é meu dever alertá-los de que não dou a mínima pra vocês. Falarei sobre o que me rodeia e se não lhes interessar, o problema é de vocês.

Lembro-me do dia em que tomei um daqueles tombos de bicicleta que ficam para sempre na lembrança e na pele. Não poderia ser de outra forma, afinal, trinquei um dente da frente e até hoje me culpo por um dia ter sido criança. Hoje, ao me ver com certo distanciamento, posso afirmar sem o menor medo que fui o único responsável por aquela queda, que mais se pareceu com uma aterrissagem mal-sucedida de um avião sem trem de pouso e com pista molhada. Foi um alvoroço danado: pessoas correram de lá pra cá em meu auxílio, dona Zezé, aquela que supostamente dera um osso de galinha à minha cadela de estimação e não satisfeita com a grande merda feita, presenteara a minha querida pulguenta com uma passagem só de ida para a terra das patas juntas, largou o que estava fazendo pra me acudir. Por isso, merece um desconto. Ainda por cima, fui obrigado a presenciar meus pais se culparem mutuamente pela falta de responsabilidade um do outro. Eu até que gostava da negligência compulsória dos dois quando guri. Era mais fácil ser livre pra aprontar naquela época, já que os dois davam duro, cada um em sua respectiva função e não tinham de fato muito tempo para ficarem de olho aberto em mim.

Como buscasse remédio de vida, minha família se mudara para um prédio em frente ao Parque Moscoso, o que havia de mais bonito e moderno em termos de casas encaixotadas e sobrepostas da época. Engraçado, só agora me dou conta de algo para o qual não havia atentado até então: quando guri achava que o velho Moscoso era o maior parque do mundo. Eu devia ter entre seis e sete anos. Com essa mudança geográfica, morria o moleque de pernas ruças e poeirentas e em seu lugar, surgia o menino_ colecionador de playmobil e figurinhas do álbum “Selos de todo o Mundo”_ que um dia iria escrever suas idiossincrasias em uma tela que brilha e serve como simulacro de máquina de datilografar. Confesso que não sei até hoje quem é esse outro garoto, pois ele raramente aparece para mim e há tempos anda sumido.

Até pouco tempo atrás eu acompanhei as suas peripécias. Soube que se mudou para o que é hoje o maior bairro de Vitória e lá, aos oito anos, conheceu aqueles que vieram a ser os seus grandes comparsas de traquinagem e de matinês na extinta boate Zoom. Lá ele cresceu, aprendeu sobre as “coisas do mundo”, como a sua avó paterna e evangélica costumava se referir ao que realmente interessa a um garoto imberbe e pré-púbere (Nem sei se essa palavra existe!), ou seja: meninas, meninas e meninas. É claro que nem sempre ele lograva êxito, no que aproveitava para preencher o tempo ocioso ouvindo os discos de vinil dos Beatles, outra grande paixão sua. Soube também que esse menino tornou-se um homem, conheceu uma pequena, apaixonou-se, sofreu, caiu e por amor se levantou. Dizem por aí que até pai ele é.

Aproveito para dizer, menino, caso você esteja me lendo agora, que gostaria de saber mais notícias suas. Sinto falta das nossas conversas, lembra-se? Eu e você na maior cara-de-pau a cantar Nowhere Man de frente para o espelho. Meu Deus, que farra! Sinto às vezes uma vontade irrefreável de sair à sua procura e repetir esses momentos tão nostálgicos e felizes, mas não sei por onde você anda. Por mais que eu procure, não te encontro. Tenho medo de que você talvez tenha se enchido de mim e fugido para nunca mais voltar em direção ao labirinto escuro que se chama Eu.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Sentimentos do Paraguai.


Já repararam como o universo pirata invadiu e conquistou espaço em nossas vidas classemedianas? Não, não falo de Cd’s, tênis e outras quinquilharias sem as quais não mais vivemos, e sim de uma síndrome que se alastra e encontra terreno fértil nos falsos sentimentos, nas falsas promessas, nos falsos olhares e sobretudo, nas amizades sem o certificado do Inmetro. Acredito que fui contaminado porque nesse exato momento, encontro-me prostrado ardendo em quarenta graus de tédio, delirando em tergiversações e tiritando com a frieza que emana da imagem das pessoas na Tv. Devo estar muito mal mesmo pra usar três gerúndios em uma frase pra me fazer entender. Deve ser a febre.

Em verdade vos digo que, no estado em que me encontro, o melhor que tenho a fazer é não me preocupar com a vida falsificada dos outros. Tenho que dar especial atenção à minha, que já foi infectada. A minha vida sim é uma vida pirata. Meus amores são fruto de pilhagens, minhas relações interpessoais estão sempre na iminência de andar na prancha, exatamente como este desabafo de falido crônico atirado aos tubarões. Para ser sincero, esse é mais um dos confusos textos que costuro na cabeça com retalhos do que vejo, ouço, sinto, distorço e só não o apago pelo prazer de atiçar a maledicência de outros tantos dodóis como eu.

Às vezes penso que talvez esteja sofrendo do mal que vem do outro lado da Ponte da Amizade e acredito que já não seja o único nessa ilha cercada pelo mar de Janaína. Vejo pessoas com o mesmo olhar toda vez que me meto à besta de pôr os pés na rua e arrisco-me a dizer que todos os infectados a quem eu conheço e desconheço já começaram a apresentar todos os sintomas típicos desta moléstia: opacidade nos olhos, enfado na expressão, sorriso amarelado, sinais que quase sempre se manifestam nos lugares em que não se quer estar e com pessoas com as quais não há a menor chance de se entabular uma conversa agradável. E não há remédio desenvolvido pela ciência que dê jeito nessa síndrome, nem quarentena; ela já se alastrou pela cidade.

Uma outra cepa do vírus da síndrome do Paraguai é responsável pela amnésia. Eu, que sempre achei que isso fosse coisa de filme B, fui obrigado a capitular, tão logo me dei conta de que as pessoas que se falavam alegremente em um dia, sequer se olhavam na rua no outro. Que se abraçavam numa hora e na outra se digladiavam. Que brigavam com tudo e com todos até ficarem sozinhos. A propósito, sobre o que estávamos falando mesmo, heim? Que lugar é esse? Quem é você? Cadê meu rum?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O cão, as zebras e o mendigo.




Acordei hoje com uma sensação nova. Enquanto ainda estava no estado em que não mais se dorme, mas ainda não se está acordado, percebi um leve roçar de línguas entre os meus dedos do pé. Foi então que a ficha caiu: minha casa era agora um lar com um cão. Ou melhor, uma cadela. Catita é o nome desta mocinha, que chegou a mim graças à bondade de pessoas a quem eu nem mesmo perguntei o nome e sem a ajuda das quais ela já teria virado sabão.

Impressionante é a sua educação. Faz as suas coisinhas sempre na rua _ e eu sempre as recolho_ com classe incomum para um ser de quatro patas. Ela é, sem dúvida, muito mais esperta que algumas “zebras” que conheci pelas minhas andanças mundo afora. Não precisa de muito para viver: só ração, água e muito carinho. E isso eu posso dar. Fico de queixo caído ao perceber que a única mácula presente, uma cicatriz horrenda, resquício dos maus-tratos sofridos por seu antigo feitor (não, ela não teve um dono), não lhe tira o sono e muito menos o brilho dos olhos. Perto dela, fico com vergonha de reclamar das minhas, que me foram impressas não no meu lombo, mas em algum lugar semelhante ao que chamam de alma, feridas que não só não evitei como ainda por cima as permiti, e por vezes, acredito que até por achar que merecia, gostei. Eu, entretanto, tive poder de escolha e não posso culpar a ninguém. Nem mesmo às zebras.

Quando arroto a minha humanidade aos quatro ventos e me permito o livre exercício do pensar_ navego em minhas sandices, erros e acertos que de uma semana pra cá, tem desembocado em seus olhinhos vívidos e gratos_ escancaro a identidade do verdadeiro ser irracional nessa história. Penso na altivez da minha nova companheirinha, inabalável sob qualquer circunstância, ao contrário da minha. Ela, por exemplo, não se intimida com o fato de algumas pessoas dizerem que sou maluco de pôr um animal em casa na situação de penúria financeira em que me encontro, que posso ser confundido com um mendigo por ter uma cadelinha tão esquálida e perebenta, e coisas que tais. Pensando bem, todo viramundo que se preze tem um pulguento como companheiro de dureza. Eu só torço para que ela tenha espírito de equipe e fidelidade o suficiente para sair em minha defesa e meter os dentinhos na canela do chato em questão. Se for assim, então tudo bem.

Ela infelizmente não sabe ler e nem escrever. Se pudesse, entenderia em um átimo o que essas palavras de novo dono de cachorro não conseguem expressar, por mais profundas que elas arrogantemente teimem em ser e que nem com toda a pompa e circunstância podem ser traduzidas para o idioma au-auês. Ao que parece, o “Grande Arquiteto” dotou os animais com um mecanismo de agradecimento muito mais profundo e singelo que a esnobe justaposição de palavras feita por mim pode explicar.

Ela entende e retribui do jeito dela, o significado de uma das mais belas e sobre-humanas palavras. O que este ser me diz em resposta com os olhos, não cabe na palavra “obrigado”. Disto tenho certeza e dou fé. Afinal, os cães, ao contrário de nós, não sabem, não querem e nem precisam fingir gratidão para sobreviver. Os cães não mentem. Já descobriram que vivem melhor desse jeito faz tempo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Primeira Rasura.

Outro dia desses, um dia em que as coisas parecem andar em câmera lenta de tão quente, me dei conta de que há meses não cuidava da silhueta. Vaidoso demais, diriam alguns, mas sei lá, de uns tempos pra cá não tenho andado assim tão satisfeito comigo mesmo a ponto de me olhar no espelho e estufar o peito numa galhardia de mãe de miss.

Cheguei à conclusão que deveria expurgar o pecado da preguiça, agora charmosamente chamado de sedentarismo em um longo, aquoso e salgado banho de mar. Justamente o mar, que com o seu movimento constante de vai-e-vem soberano sobre todas as coisas à sua superfície e abaixo dela, serviu-me de divã por tantas vezes. À propósito,ao prestar um pouco mais de atenção no verdadeiro dono dessa ilha, finalmente percebi que ele é um sujeito injustiçado. Sim, o tom impessoal é intencional. Transmuto o mar em sujeito porque posso, afinal sou seu amigo íntimo. Quantas pessoas passam por ele todos os dias aboletados em caixas amarelas, azuis e verdes que mais parecem lagartas apressadas e não lhe fazem a merecida reverência? A esses, posso dizer sem o menor levantar de pestanas um solene “azar o de vocês”.

O mar, caro amigo, é o sujeito mais honesto que eu conheço. De pronto posso afirmar que ele não pega nada que é de ninguém e, quando o faz, logo se encarrega de devolvê-lo, tão logo os rumos da maré o permitam. Tampouco engana a quem não o conhece, o que é louvável de sua parte. É o templo dos cinco sentidos. Tato, paladar, olfato, visão e audição aguçam o espetáculo que é entregar-se à volúpia de um bater de braços e pernas contra a correnteza. Enfim, de estar vivo. Só um verdadeiro e honesto amigo pode lhe oferecer tanta coisa em troca de um simples encontro, um “olá”...

Entretanto, devo admitir que não tenho feito a parte que me cabe nessa relação. Tenho, isto sim, que render-me à constatação óbvia de que nunca poderei retribuir o que a mim foi dado livremente por ele, o mar. As sensações de abandono e de desesperança simplesmente escorrem feito água do meu pensamento em direção ao ralo das más idéias com um simples banho. Idéias que teimam em surgir por puro capricho. Idéias que trituram toda capacidade de compreensão e de conexão com o mundo de um sujeito como eu, que não foi muito bem visitado pela virtude da paciência, e que tem por melhor amigo o “mar oceano”. Idéias que, como cabelo no ralo, entopem e sufocam toda e qualquer chance de destruição criativa e que provocam esse rancor que endurece as juntas do corpo e da alma. Existem muitas e aos borbotões, tantas que para eu não sucumbir à loucura de pensar, logo viver é que tento afogá-las... Idéias imbecis, mas que teimam em rodear meus pensamentos nestes dias de mais barriga e menos amigos. Idéias maldosamente travestidas de solidão.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007